Cada curador escreveu a sua leitura da mostra. Os três textos são publicados na íntegra, lado a lado.
Texto curatorial
Adriana Botelho
Fotopolis — termo composto que une foto (luz/fotografia) à pólis (cidade) — dá nome e sentido à presente exposição. Reunindo 50 imagens selecionadas por rigoroso processo curatorial, a mostra propõe uma experiência visual fundamentada na premissa: a cidade vista através da fotografia.
As obras aqui apresentadas constituem um rico e diverso recorte imagético, no qual se faz presente o espírito do tempo — conceito filosófico que designa o clima cultural, as formas de pensar e os modos de agir de uma época. Ao abordar temas como gênero, religião, infância, festas populares, política, trabalho e lazer, as imagens revelam, em simultâneo, prazeres, tensões e dilemas subjetivos de personagens que habitam e atravessam as paisagens — urbanas e rurais — do Brasil contemporâneo.
Dos experimentos poéticos à fotografia clássica de paisagens, retratos e elementos gráficos, passando por registros performáticos, todas as obras são tratadas com o mesmo esmero e rigor curatorial. Tal cuidado não apenas nos faz ver, mas convida a um olhar em perspectiva inversa: a interrogar os olhares de onde partem as imagens. Revelam-se, assim, os múltiplos e exuberantes pontos de vista das fotógrafas e dos fotógrafos que dão vida a esta primeira edição do festival, sediado na cidade de Sobral.
Texto curatorial
Cássio Teixeira
A exposição Fotopolis referencia a união etimológica entre a luz e a cidade para investigar o cerne do espaço habitado iluminado pela fotografia. Se a pólis é o cenário da convivência, as 50 imagens aqui reunidas funcionam como sensores da alma coletiva, capturando o que podemos definir como zeitgeist, ou também como o “espírito de seu tempo”.
Nesta mostra, a cidade não é apenas um pano de fundo geográfico, mas um organismo vivo que pulsa através de tensões políticas, ritos de fé e o silêncio da memória cotidiana.
O recorte imagético apresentado revela um Brasil de contrastes profundos, onde o interior se entrelaça em narrativas que desafiam a linearidade. Através das lentes de fotógrafos somos convidados a redescobrir a poética e a força silenciosa da infância. Cada obra é um fragmento de uma arqueologia contemporânea. No gesto somos convidados a interrogar o olhar que a concebeu.
A fé, a identidade e suas representações
As celebrações populares e rituais de cura, como os documentados por Janilda Coelho e Marcelo Leite, trazem à tona a ancestralidade como força viva que resiste ao esquecimento. Projetos como o de Negro Sousa transformam a pele em escultura viva, conectando tradição, pertencimento e preservação cultural através de grafismos e memórias ancestrais.
Sobral como palco de encontros
Ao reunir produções que vão dos experimentos poéticos ao rigor documental, o festival consolida-se como um espaço de diálogo entre artistas de diversas origens — do interior do Ceará a grandes metrópoles como São Paulo.
Fotopolis é, em última instância, um convite para reconhecer que a cidade é feita de múltiplos começos e retornos, uma rede exuberante de pontos de vista que nos ensina a ver, enfim, o que sobrou do centro e o que renasce nas frestas.
Texto curatorial
Tiago Marques
Fotopolis surge em Sobral como uma nova oportunidade de se observar a fotografia em suas mais diversas variações. Apresentado na forma de festival competitivo, onde 50 artistas selecionados trazem seus olhares na construção dessa cidade de luz.
O festival obteve, a partir da sua curadoria, um conjunto de imagens que leva o olhar a passear por fotografia urbana, paisagens naturais, retratos, foto arte, experimentações visuais, registros da vida na natureza, ensaios e cotidiano. Fazendo um convite a apreciar as cores, as formas e as texturas dos mais diversos locais do país, o Fotopolis pretende iniciar um novo ciclo da produção fotográfica na região, estimulando e inspirando novos artistas a fazerem da captura de imagens o meio para a produção artística.